18/07/2012

Ainda há cidade para as crianças?







Em Junho deste ano, no espaço de três semanas, foram atropeladas doze crianças na cidade de Lisboa. A notícia é dada pelo Comando Metropolitano da PSP de Lisboa, cujo comunicado tem interesse analisar. 


O que está aqui verdadeiramente em causa? Qual é a génese destes "acidentes"? Os dados da polícia esclarecem cabalmente os factos e circunstâncias envolvidos?



Dizem-nos:


Muitos dos atropelamentos ocorrem fora da passagem destinada à travessia dos peões e em locais onde estão viaturas estacionadas, surgindo as crianças de forma inesperada por entre esses veículos
  • “Muitos”, mas quantos em concreto? Qual a estatística? 
  • E nesses locais, há uma passadeira a menos de 50 metros? (De recordar que é permitido atravessar a rua fora de uma passadeira se não houver uma disponível a menos de 50 metros - facto desconhecido por muitos condutores);
  • Os veículos por entre os quais surgem as crianças estavam bem estacionados, ou estacionados em cima de passeios, antes ou depois de passadeiras?
  • Havia veículos na proximidade estacionados ilegalmente que tenham influenciado a ocorrência do acidente?
  • Qual era o tamanho dos passeios? 
  • Os veículos que atropelaram as crianças circulavam com o normal dever de cuidado que se impunha à situação concreta, antecipando factos fortuitos? 
  • A que velocidade circulavam?
  • Quais eram as condições da estrada no local?
Por outro lado, se “muitos dos atropelamentos ocorrem fora da passagem destinada à travessia de peões”, quer dizer que muitos outros ocorrerão dentro da passagem destinada à travessia de peões. E quanto a esses, nem uma palavra?

Do alerta do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, resulta que só há dois culpados possíveis: 

  1. As crianças; 
  2. As pessoas à guarda das quais estavam as crianças;
O que fica claro da declaração de intenções: "Por isso, a PSP resolveu lançar uma campanha de alerta à população para pedir mais atenção com as crianças que estão actualmente de férias."

Não uma campanha dirigida aos condutores, mas à população em geral, o que é verdadeiramente extraordinário. As crianças têm que ser ensinadas de qual o seu lugar no mundo.


Referências à responsabilidade eventual de pessoas que conduzem uma máquina de mais de uma tonelada de peso? Nenhuma. Para a responsabilidade dos condutores, nem uma palavra. A educação e vigilância destes é desnecessária, entende-se. 

Numa cidade em que os maus exemplos de condução em excesso de velocidade e estacionamento ilegal, com ocupação de passeios e violações recorrentes da distância mínima de estacionamento antes e depois de uma passadeira ou mesmo em cima delas são um hábito instalado, a ausência de ponderação da responsabilidade do condutor é chocante.

Basta observar o comportamento dos condutores em geral para se perceber que poucos conduzem preventivamente e que o excesso de velocidade é uma prática corrente dentro das localidades (não apenas em Lisboa). O que somado ao estacionamento selvagem e em desrespeito pelas pessoas (já nem falo do Código da Estrada porque a esse nem a polícia liga com rigor) dá uma situação de perigo eminente em centenas de ruas.


Quantas são as zonas em que os automóveis ocupam de tal forma os passeios, que impedem qualquer tipo de brincadeira de crianças? Aliás, quais são as crianças que ainda brincam nas ruas? O espaço público da cidade foi nestes últimos vinte anos tomado de facto pelo automóvel, aprisionando as pessoas e impedindo a vida na rua. E depois quando há um acidente, o ónus fica sempre do elemento mais frágil da equação, com o típico "Apareceu vindo do nada". Mas quantos são os automobilistas que conduzem antecipando imprevistos desse género e moderam a velocidade nas ínumeras situações de falta de visibilidade? 



 Estes discursos branqueadores da realidade por parte de quem devia ter (também) uma atitude educativa não são úteis nem ajudam a uma urgente necessidade de mudança de mentalidades. Quem conduz uma máquina de mais de uma tonelada de peso a mais de 30Km/h dentro de uma cidade é que tem que ter um especialíssimo dever de cuidado. Pôr o enfoque no comportamento das crianças é mais do mesmo e não conduz a nada.


Para além disso, os passeios da cidade já estão pejados de automóveis um pouco por todo o lado. Para onde hão-de ir as crianças? Qual foi a última vez que alguém viu as marcas de um qualquer jogo infantil desenhado num passeio?


O mundo supostamente é das pessoas. Mas a cidade parece que já não é das crianças.

5 comentários:

Gonçalo disse...

O que esperar dessa gentalha quando são eles os primeiros a estacionar, parar ou circular de forma ilegal? É a total inversão dos valores morais... O excesso de automóveis mutilou as cidades e o país, e em nenhum caso poríamos a culpa nos condutores, como se faz nos países desenvolvidos da Europa.
Vamos ensinar as crianças que não podem andar na estrada (por causa dos automóveis), vamos ensinar as crianças que não podem andar nos passeios pedonais (por causa dos automóveis)...
Alguém experimente andar com um carrinho de bebé por uma rua deste país! A "crise" não é a única explicação dos casais já não terem filhos.

Vitor disse...

Eu tenho automóvel e se tivesse um silo onde o estacionar não o deixaria na rua. Ando muito a pé e conduzo frequentemente um carrinho de bebé. Gosto menos da cidade desde que o faço... E há sítios onde deixei de ir porque não o posso fazer em segurança. Quanto à policia, não o é verdadeiramente. São apenas pessoas que poderiam ter qualquer outra profissão e não têm sensibilidade suficiente para o desempenho da sua função.

Julio Amorim disse...

Ora aqui está uma mão cheia de questões pertinentes, às quais seria bom dar resposta.

"(Quase) Não há turista que não deseje voltar a Lisboa"....a conclusão lê-se no Inquérito de Satisfação de Imagem !

Que teriam respondido os mesmos turistas à pergunta....
Gostaria de viver cá com os seus filhos ?

joao pedro barreto disse...

Excelente post do Pedro Fonseca (mais um).

O domínio gradual do carro sobre as nossas ruas avança devagarinho e torna-nos inertes, incapazes de percebermos o que se passa.

É engraçado constatar que, por norma, os mais exigentes e revoltados quanto ao protagonismo abusivo do carro nas nossas ruas são muitas das vezes aqueles que não desistem de as viver e usar como peões, com os seus filhos, no trajecto para o trabalho e em lazer.

Outras vozes frequentemente se levantam, dizendo que isto é um "não assunto", que só fundamentalistas dão atenção a estes detalhes, que o que é importante são estradas por onde o carro passe sem abrandar, que o peão tem de ser mais cauteloso e obediente, afastando-se das ruas.
E o que é engraçado é que estas vozes, por norma, são daqueles que já há muito desistiram da rua como pessoas. Pobres e ricos, passaram a morar longe da cidade, a passar os seus tempos em jardins artificiais em condomínios, ginásios, estâncias turísticas e centros comerciais, a transportar as suas crianças de carro para o colégio.
Desistiram da rua e adoptaram hábitos e comportamentos que a roubam ainda mais àqueles que ainda lutam por ela.


Já agora, números de um relatório da UE para juntar aos argumentos do Pedro Fonseca:
"In Portugal, pedestrian accidents show particularly adverse fatality rates, compared to other EU countries. Whereas the average fatality rate for car and truck occupants in Portugal was 1.4 higher than the average EU 15 rate in 2002, this ratio rose to 2.1 in case of pedestrians."
(http://www.etsc.eu/documents/Fact_Sheet_VOICE_PT%20-%20en.pdf)


E números de 2011 dizem-nos que 40% dos atropelamentos dentro de localidades ocorrem quando o peão se encontra a atravessar a faixa de rodagem (na maior parte dos casos, quando o peão está a atravessar a via com sinal verde, numa passadeira ou a mais de 50 metros de uma passagem de peões, ou seja, em local permitido).
(http://anossaterrinha.blogspot.pt/2012/06/o-automovel-2.html)

PG disse...

Parabéns pelo post. Eu próprio, ao ler o comunicado da PSP, me tinha já colocado algumas delas. Também seria bom colocá-las aos autores do comunicado (duvido que leiam este blog). Eu sei que na melhor das hipótese, vão dar uma resposta insatisfatória. Mas ainda assim valeria a pena: água mole em pedra dura...